domingo, 22 de setembro de 2013

Coisas de Diário

Nota: um esboço deste conto já foi postado aqui anteriormente com outro título. Volto a postá-lo a pedido dos que gostariam de lê-lo em função da menção honrosa ganha no Concurso Internacional de Contos de Araçatuba.


Era meu segundo dia na Holanda e, sinceramente, já contava as horas para o dia acabar. Os passados em Paris foram encantadores. Sei que esse encanto deveu-se ao fato de a cidade e eu não termos nenhum compromisso entre nós. Mas, ao fim dos cinco dias, juntei-me a uma excursão. Paguei essa parte da viagem em prestações de um ano e meio. “CONHEÇA O MELHOR DA EUROPA EM 10 DIAS.” Não preciso nem dizer o quanto desesperador e decepcionante é tentar atravessar uma parte do velho mundo que seja em um espaço tão curto de tempo. Somos arrastados por caminhos que não escolhemos e, na ânsia de vermos tudo, acabamos muito mais perdendo de vista. Mas, quando seu desejo pelo universo é intenso, então ele se digna a compaixão. Não sei se é uma regra, mas... Parto amanhã, e agora sem nenhuma decepção.

“Deus criou o mundo, mas a Holanda foi criada pelos holandeses.” Desconheço o autor. Ouvi dizer que era uma terra coberta por água, tomada pelo mar. Mas, os seres humanos que cá vivem, decidiram viver aqui e assim o fizeram a todo o custo.

Prometeram-me flores. Vi poucas. Tudo bem. A história me encantou. Dizem-se um povo livre. Acredito porque me disseram e talvez o sejam por dizerem. Dar-me-ei ao luxo de contar uma história que talvez seja verdade apenas porque a conto.

Foi-nos prometido conhecer os frutos proibidos no “nosso mundo”. Fazia parte do itinerário, conheceríamos as drogas e as putas de Amsterdan. As drogas que abrem o corpo para outras sensações quase tão proibidas quanto. E as putas... bem, as putas, o mundo inteiro sabe bem, mas que eu vi como nunca havia imaginado.

O caminho era longo. Várias belezas se espalhavam por esse país encantadoramente estranho. Muita gente, o que em geral não me agrada.Alguns passavam habitualmente, outros fingiam encantos, ou se encantavam mesmo, não me preocupei em lhes observar a autenticidade. Eu procurava flores. Prometeram que elas cresciam aos montes naquela época do ano, belas e livres. Não sei se foi mentira ou ilusão alheia, sei que me esforcei na procura.
Meu corpo já estava cansado. Se eu resguardava alguma expectativa, ela com certeza me escorregara dos bolsos. Já andava com os olhos baixos. E me observando, acredito que o universo teve compaixão: encontrei a flor. Sim, em artigo definido, pois sei que era ela que no fundo eu esperava encontrar entre milhares. As milhares não vieram, mas ela foi fiel, jogada no asfalto cotidiano. Não sei de onde veio. Se caiu de um cesto, se cresceu ali ou se despencou do céu. Só estava lá. Linda, viva, vermelha, livre. Livre para crescer e ser onde tudo simplesmente passava. Mas, assim como eu, com meus olhos baixos de cansaço, ela deixava escapar de si uma tristeza involuntária, talvez por ser demasiadamente livre e, portanto, solitária.

Tomei ma corajosa decisão: parei no meio da rua apressada e colhi a flor de sua liberdade. Abraçamo-nos como dois queridos reencontrados. Quando me dei conta, estava diante das drogas e das putas. O Bairro Vermelho, onde o pecado merece respeito.

A rua era comprida, dividida por um canal como é em toda a parte por aqui. Tudo muito amontoado: cores cheiros, sons e até as vontades. Parecia que, ao mesmo tempo, tudo e todos buscavam a liberdade esguia naquele asfalto cru. De minha parte, não me senti mais livre, nem menos também.

As putas ficavam dispostas em vitrines exibindo seu produto, à espera de um desejo que se desatasse de todo o emaranhado e as viesse convidar. Havia poucas, quase nenhuma. Ainda era cedo para aquele tipo de comércio. Vitrines eu vi aos montes, porém vazias, pedindo aos meus olhos um significado. Eu poderia elaborar muitas comparações para aquela situação peculiar aos olhos ingênuos e adestrados. Mulheres e vitrines. Corpos e vitrines. O desejo podendo observar pelo vidro o desejado. Mas, metaforicamente, é mais capitalismo do que minha poesia pode suportar. Fui dando aos meus pés o consentimento para seguirem distraídos enquanto me dedicava à flor. Nessas excursões quase nunca se para. Nem para ver. E tão cegamente meus pés obedeceram que subi os degraus de uma charmosa soleira, assim por acaso, por distração. Só percebi quando meu corpo tocou desastrosamente aquela puta:

- Perdão! – num susto.

Ela não respondeu. Olhou-me esguia como quase nem se olha. Manteve a face e o corpo voltados para algo que parecia uma procura; uma espera. Acelerei meus movimentos desencontrados para escapar àquela cena, mas a ingênua curiosidade me conteve e eu gaguejei meu comentário tão desnecessário:

- Você não está em uma vitrine...

Não me passou pela cabeça a possibilidade de ela não entender o meu inglês mal treinado. Recebi um sorriso sem o seu olhar. E por um instante, dei conta de que eu deitava meus olhos sobre ela no seu corpo desnudo paradoxalmente vestido de puta. Não sei quanto tempo me demorei olhando e nem se ela se incomodava, mas a inércia da situação me impulsionou uma atitude – desnecessária? Estendi-lhe a mão que guardava a flor:

- Isso não me paga. – sorriu com desdém.

- Estava no chão. – minha voz eram cacos, meu corpo se encolhia em submissão a algo que ela parecia possuir e a tornava superior.

Silêncio.

- Não me pertence. – quebrei.

- Nem a mim.

- Pode pertencer se você aceitar. – os cacos se juntaram firmes e o corpo tomou a coragem do desvendar.

Pela primeira vez, ela me olhou e eu olhei seus olhos em resposta. Dessa vez sorrimos pelo olhar.

Ela me convidou para entrar. Eu disse que não podia pagar. Ela deu de ombros. Eu sorri minha timidez com os lábios. Ela segurou minha mão. Eu senti a pele morna na minha fria. Ela me puxou para perto. Eu me ergui nos pés e beijei-lhe a face. Ela fechou os olhos e respirou fundo. Tragou o ar feito uma droga, carregado do sentimento que criamos. Eu me demorei no beijo, apertei-lhe a mão e me fui. Ela aceitou a flor, é tudo o que sei, mas, quando penso, gosto de acreditar que também tenha chorado e não trabalhado aquele dia.

Depois disso, para mim, mesmo nos dias de trabalho, ela não era mais puta. Era mulher. A falta do vidro entre nossos corpos permitiu que eu enxergasse nos olhos dela a vitrine de sua alma. E tudo o que eu vi é segredo.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

O que se pode aprender com J.J Rousseau

Trecho da sétima caminhada do livro "Os Devaneios do caminhante solitário":



" Em todos os males que nos acontecem, olhamos mais a intenção que o efeito. Uma telha que cai de um telhado pode nos ferir mias, mas não nos aflige tanto quanto uma pedra lançada propositalmente por uma mão malévola. O golpe erra o alvo algumas vezes  mas a intenção nunca o erra. A dor física é a que menos se sente nos ataques da sorte e quando os infortunados não sabem a quem culpar por suas infelicidades, culpam o destino, que personificam e ao qual atribuem olhos e uma inteligência para atormentá-los propositalmente. É assim que um jogador exasperado por suas perdas se enfurece sem saber contra quem. Imagina um destino que se encarniça deliberadamente contra ele, para atormentá-lo e encontrando um alimento para sua cólera, exita-se e inflama-se contra o inimigo que criou para si mesmo. O homem sábio,que em todas as suas infelicidades não vê se não o golpes da fatalidade cega, não tem estas agitações insensatas, grita na sua dor, mas sem veemência, sem cólera, do mal que o atinge sente apenas o ataque material e os golpes que recebe em vão ferem sua pessoa, nenhum chega a seu coração.
É muito ter chegado até este ponto mas não é tudo se nele nos detivermos. É bom ter cortado mal mas isto não significa ter deixado a raiz. Pois essa raiz não se encontra nos seres que nos são estranhos, ela está em nós mesmos e é aí que é preciso trabalhar para arrancá-la c
ompletamente. "

quinta-feira, 7 de março de 2013

Maldição é ter a democracia suja por um representante desse nível.

A tristeza, o inconformismo e o choro de representantes dos movimentos sociais e de religiões afro-brasileiras com a eleição do pastor Marco Feliciano para a Presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias. 


(Foto: Zeca Ribeiro)

Muitas postagens estão sendo feitas sobre as opiniões homofóbicas do nosso atual - espero que não efetivo - presidente da comissão de direitos humanos. Mas, para mim, muito mais sérios foram os pronunciamentos dele, sejam recentes ou não - porque ele ainda não se redimiu e nem se deu ao trabalho de explica-las -, sobre o continente e o povo africano. Ele os trata como amaldiçoados, tentando justificar as dificuldades enfrentadas pelo povo africano em cada canto daquele imenso continente e também fora dele. Povo que não bastando ser atacado em sua própria terra foi levado dela para viver como ser inferior em outros cantos do mundo. E que cor eram as mãos dos que os carregaram pra fora da África e banharam o continente com o próprio sangue negro? Poderiam ser ROXAS aquelas mãos, mas com toda a certeza não eram mãos divinas, essas mãos também sangraram. É o homem como lobo do homem, nem mais, nem menos. 
E é muito feio - não achei expressão melhor - da parte de qualquer religioso usar o nome do seu deus para justificar essa involução da humanidade, como se nós não tivéssemos uma dívida histórica, ao meu ver impagável, com essa nação. 
Uma Comissão de Direitos Humanos visa o alcance de direitos historicamente negados as minorias (no sentido científico da palavra), não a justificação da violação desses direitos. Portanto, me perdoem se eu, Brasileira nata, residente em um país regado pelo suor negro, branco, pardo, mulato, amarelo, espero do meu presidente da Comissão Nacional de Direitos humanos uma posição e um histórico completamente diferente do Pr. Marco Feliciano.
Mas, se ele insistir em maldição proponho a união de todos os "sacerdotes" das religiões afro-brasileiras para fazermos uma grande "macumba" e tirarmos esse cara do banco mais alto da NOSSA Comissão!




" ... e de tudo o que plantaram nada lhes restou... nem da terra, nem dos frutos. Apenas a liberdade! "

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Primeiro Poema Metrificado

Se você aceitasse minha mão
Se esperássemos filhos
Se viesse menina em canção
Se chorasse vida em seu parto
Se viesse Deus sabe donde
Pra dormir em nosso quarto
Se a ela encontrássemos
Perdida de direção
Se você não fizesse questão.

S'enlaçadas nossas mãos
Coubéssemos nós três no retrato
Se fossemos para sempre,
Que nos fosse por um triz,
A ser feliz condenados
Ela poderia, meu amor,
Chamar-se Beatriz?


* Uma anedota sobre o poema *

A ideia veio quando eu ouvi a música Beatriz no álbum d' O Grande Circo Místico. Eu já conhecia a música, talvez como a maioria hoje, pela voz da cantora Ana Carolina. Mas, dessa forma ela fica solta em um álbum que não lhe pertence.
Beatriz foi composta por Chico Buarque e Edu Lobo para este balé chamado O Grande Circo Místico. Sim, exatamente isso: não existe só o Lago dos Cisnes. Enfim, ouvindo a música dentro do seu álbum, que alias é fantástico, ela me encantou como realmente deveria me encantar. E eu decidi, toda encantada, que minha filha se chamaria Beatriz, quando ela viesse, se ela viesse. Então fiquei me imaginando tentando convencer  "my partner" a chamarmos nossa filha assim. Aí saiu o poema.
Mas, quis fazer direitinho dessa vez, metrificado, pelo menos uma tentativa. Enfim, fiquei umas boas horas pra tentar calcular os versos e colocar as sílabas no lugar. Enquanto isso eu ouvia , pela primeira vez, o álbum Antônio Brasileiro do nosso mestre Tom Jobim. Na metade do meu trabalho uma das músicas do álbum me chamou atenção e foi enquanto ela tocava que eu terminei o poema. Voltei a música e me dei conta que ela foi feita por Tom para sua filha, e a menina cantava com ele: O Samba de Maria Luíza. Postei no meu face na hora o sambinha que é fofo por demais. Depois fiquei pensando que talvez a poesia tenha um carma ou sei lá o que. Achei loucura eu estar escrevendo um poema do nome da minha futura filha (se ela vier) enquanto Tom, do nada, em um álbum que eu esperava baixar a dois dias e ainda não sabia o que tinha dentro, cantava pra mim um samba com o nome da sua filha. Acho que me senti em harmonia com o maestro, tenho esse direito, não tenho?! (risos)

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Na outra espera


[ VIDE Na espera]

“A vontade é de pegar qualquer um desses ônibus que tiveram o privilégio de sair no horário. Esse! Rio Preto? Não, também não é pra tanto.”

Duas horas de espera para quem toma tarja preta em função de ansiedade é realmente uma tortura. Era o segundo maço que ela abria naquela semana. Falando assim a um fumante assíduo parece até piada, mas, para ela que usava o hábito apenas como charme boêmio – imprescindível para quem se julga escritor – um maço não pode atrever-se a durar menos de uma semana. Até porque o preço do charme não era pago apenas com sua pouca saúde.

“Por que essa agonia em querer estar sempre indo? Afinal, não me importo pra onde?” Deu um trago profundo. Olhou para o ônibus que estava saindo, uma mulher com os ombros caídos, olhar de quem nada procura, fitava-a com uma sutil curiosidade disfarçada. A escritora esboçou um sorriso interior, adorava poder oferecer seu charme a olhos curiosos, tudo parecia bem menos inútil.

“Por um segundo quase não importou mesmo!” Continuou seu pensamento como se ele também pudesse ser observado pela moça triste que partia lentamente no seu ônibus pontual. E o ritual foi automático: abrir a bolsa em busca do bloquinho das inspirações fora de hora. O engraçado é que abrir o bloquinho já era em si um grande obstáculo. Ela sempre atava os olhos e o pensamento nas inspirações passadas desenhadas nas primeiras páginas. Era um vício muito mais autêntico que o cigarro. Quantas vezes não se esvaneceu o pensamento que fê-la abrir o bloquinho antes que chegasse na próxima página em branco...!

“Eis: o túmulo dos meus pensamentos, é aqui que os deito para não mais me atormentarem. Ficam aqui nessas folhas outrora brancas para que, por vezes, possa contemplá-los, mas, nunca mais vivê-los em mim.” Era a última inscrição. “Quem dera fosse verdade. Me livraria dos meus demônios todos. Isso sim é uma grande mentira!” Pensou em voz quase alta. “Roberto – o psiquiatra – achou a teoria um progresso emocional da minha parte: tão charlatão quanto eu!”

Enfim a página em branco. Foi em busca da caneta dessa vez. Uma caneta tinteiro! Em pleno século XXI, só quem rende a própria saúde em nome de uma imagem melhor de si mesmo, abriria mão da praticidade que as canetas esferográficas oferecem para, em meio a vida moderna, sacar da bolsa uma imagem tão deslocada no tempo: uma caneta tinteiro. Combinava com ela, isso era um fato. Ela acreditava que isso poderia dar mais valor as palavras. E talvez, porque ela acreditasse tanto, assim realmente o fosse. Abriu a caneta e como sempre, talvez culpa da má qualidade do objeto, teve que limpar o excesso de tinta do bico. “Ainda bem que não secou, senão não daria para escrever agora.” Esfregou as pontas dos dedos manchados no banco para não sujar as páginas em branco. Mas, antes de escrever qualquer palavra, contemplou seus dedos enegrecidos. Olhava imaginando o quanto dela e de seu ofício havia aquela imagem. “E quantos enxergam isso?”

Ergueu de súbito os olhos à janela da mulher dos ombros baixos, mas, o ônibus já havia partido, talvez há muito tempo. Que sentimento era aquele? “De qualquer forma, que seja!” Ela já havia perdido, mais uma vez, a inspiração que a fizeram abrir o bloquinho. Guardou tudo na bolsa e pegou o cigarro dentro na cigarreira de alumínio. Hesitou. “Já estou farta dessa imagem.” Fechou a bolsa com tudo seguro lá dentro, suas coisas ultrapassadas pelo tempo. Cruzou as pernas e pousou os dedos negros no joelho esperando com sua ansiedade invisível seu ônibus chegar.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Primeiro conceito de 2013

Adolescente, adulto, criança, jovem, velho: até o tempo tem seus rótulos.
E eu que não tenho idade pra nada, fico assim: indefinida.
Madura demais pra certas loucuras;
Inocente demais pra acreditar só no possível;
Jovem demais pra aceitar a rotina;
Velha demais pra apostar em revoluções;
Forte demais pra se entregar a morte assim tão cedo;
Frágil demais pra conter, por um segundo que for, as lágrimas eternas de quem há muito se perdeu.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Sobre o que é tolo

Gosto de escrever pelo prazer sutil de deslizar a caneta. Raspar o lápis no papel fazendo barulho de coisa séria. Um prazer tão próprio que às vezes tenho a gana de escrever de olhos fechados. Então tudo é bagunça por dentro e por fora.
E quando não se tem, nem se sabe o que escrever, mas brota esse desejo de brincar de escritor ... ah! É mais angustiante que noite de domingo depois da missa.
É uma vontade que deveria ter resolução própria, como a falta de ar, que se o ar falta, o corpo dana a respirar com mais força sem que se possa controlar.
O desejo de roçar a caneta no papel não se satisfaz se o fizermos sem direção. O atrito deve desenhar palavras e as palavras devem desenhar algo com a ousadia de ser dentro e fora do papel.
Vontade ingrata, que por mais satisfeita hora ou outra volta, como fome e sede que nem a morte alivia. Os crentes dos espíritos alimentam e embebedam seus mortos conforme a vossa vontade.
No pé do meu túmulo deixem sempre um papel e uma caneta. É o suficiente.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

sem assunto

De tantos assuntos importante para serem abordados: políticas esperando críticas, notícias sedentas por títulos sensacionalistas, movimentos clamando uma propaganda para não parecerem tão inúteis. Enfim, um mundo a ser abordado. E mais uma vez eu me entrego à maior futilidade da literatura: o amor. Que alimente a alma, como alegam os românticos, e que a alma seja mais importante que o corpo. Que seja o mais velo e puro sentimento, capaz de construir e demolis histórias. Que seja a melhor invenção da vida, mas, falar de amor: não existe nada mais vão. Ainda sim, até os iletrados se atrevem a falar sobre ele, à bolar teorias. E eu, se tenho um tempo sobrando, logo me entrego. Na verdade, se o tempo não sobra, também.
Já parei de fumar, diminui a quantidade de café, mas não sei parar de falar de amor. Mesmo sem ter o que dizer, como é o caso nesse momento, preciso mencioná-lo uma vez por dia, por hora, se necessário, em voz alta, ouvir de mim mesma a minha submissão ao vício.
"Mas, e os amores como vão?" Pera aí! Estamos falando de amor. Vivê-lo é outro texto!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Poema

Oh! aquele menininho que dizia
"Fessora, eu posso ir lá fora?"
Mas apenas ficava um momento
Bebendo o vento azul...
Agora não preciso pedir licença a ninguém.
Mesmo porque não existe paisagem lá fora:
Somente cimento.
O vento não mais fareja a face como um cão amigo...
Mas o azul irreversível persiste em meus olhos.

( Mario Quintana )

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O Falso Mendigo

Minha mãe, manda comprar um quilo e papel almaço na venda
Quero fazer uma poesia.
Diz a Amélia para preparar um refresco bem gelado
E me trazer devagarinho.
Não corram, não falem, fechem todas as portas a chave.

Quero fazer uma poesia.
Se me telefonarem, só estou pra Maria
Se for o ministro, só recebo amanhã
Se for um trote, me chama depressa
Tenho um tédio enorme da vida [...]

Minha mãe estou com vontade de chorar
Estou com taquicardia, me dá um remédio
Não, antes me deixa morrer, quero morrer, a vida
Já não me diz mais nada [...]

Não aguento mais ser censor.
Ah, pensa uma coisa, minha mãe, para distrair teu filho
Teu falso, miserável, teu sórdido filho
Que estala em força, sacrifício, violência, devotamento
Que podia britar pedra alegremente
Ser negociante cantando
Fazer advocacia com o sorriso exato
Se com isso não perdesse o que por fatalidade de amor
Sabe ser o melhor, o mais doce e o mais eterno da tua puríssima carícia.

Vinicius de Moraes

domingo, 6 de janeiro de 2013

Canção

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, apressa-te que amanha eu morro,
que amanha eu morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, apressa-te que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta em tua face
e em redor dos muros o vento inimigo.
Apressa-te, amor, apressa-te que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo...

Cecília Meireles

domingo, 30 de dezembro de 2012

Quem se atreve?

O amor é um grande atrevimento da nossa parte. Se despíssemos todos os pudores, jogássemos na cara das tradições nossa nudez social, sexual e profissional, se vomitássemos nossos mais ínfimos desejos no tapete persa de todo esse sistema, com certeza acabaríamos sendo redimidos, cedo ou tarde, por algumas de nossas virtudes.
Agora, quando nos atrevemos ao amor, estamos irrevogavelmente condenados. Não pela gravidade do crime, que realmente não é dos mais brandos, mas pela condição a que o amor nos submete: a liberdade. Por amor somos livres em nós, porque por amor, pra quem se ama, tudo é permitido e possível. A única hipótese que jamais poderá ser é não amar.
Não é romantismo. É puro atrevimento. De querer ser livre ao menos por dentro, porque a liberdade de fato não é um crime possível.  

domingo, 9 de dezembro de 2012

Com todo respeito

Hoje me atrevo a compor,
Me atrevo a escrever,
A errar a gramática,
A olhar para o mundo,
sentir harmonia em tudo,
Alegria, dor,
Ódio, amor,
Verdade, mentira,
Silêncio e poesia.
Me atrevo a entender
Que o mundo é tão grande
E por ele, eu andante,
Me atrevo a viver

Atrevido o meu verso
Convida a menina,
Convida a senhora,
O genro e a nora
Se atreve a chamar
O mendigo e o pedreiro,
O doutor, carpinteiro
Pra alegria cantar
Me atrevo a dizer
Que a tristeza foi embora
Agora é a hora da gente sorrir,
Da gente cantar,
Da gente dançar,
Da gente ser gente
E ser além de existir.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Concretizando Heráclito


Um homem jamais poderá banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois da segunda vez que tocar seu corpo na água o rio já não será mais o mesmo daquele que o banhou na primeira vez, nem o mesmo homem.

Quando meus olhos alcançaram as paisagens de beira de estrada e os meus pulmões se encheram desse ar remotamente familiar, eu tive a experiência concreta dessa filosofia. Só o meu rio que aparentemente era exatamente o mesmo, aparentemente intacto, como se estivesse me esperando todos esses anos para refletir a imagem de um espírito que eu ainda não havia visto. O “rio” me deu a certeza de que eu não era mais a mesma.



[   Eu até poderia esclarecer com mais detalhes esse momento da minha vida, mas, acho que tudo fica tão mais interessante quando é subjetivo. Foi mal ;)  ]

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Rebeldia

Vou vestir minha calça mais larga
Só pra sentir o toque leve da liberdade
Equilibrar-me no meio-fio
Como criança entediada em dia de domingo
Vou decorar toda a cidade com denúncias sobre a verdade.
Desisti dos versos medidos!
Farei poesia até para os menos entendidos.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Falando em nome de Deus ...


Ainda não sei se escrevo por amar demais ou se amo demais para poder escrever. Sei que é o amor responsável pelas linhas que crio, sejam elas histórias, sejam apenas devaneios, sejam verdade ou pura imaginação. É tudo culpa do amor. Aquele que eu escolhi como meu onipresente e onipotente senhor. Por ele eu me humilho, me subjugo, sacrifico, obedeço, enfrento. Por ele eu canto e silencio, choro, sorrio e clamo. 
Pode-se dizer que é uma relação de fé às vezes. Ele é um tanto quanto abstrato. No entanto, realiza milagres para se concretizar. 
Sou dele pela fé e pelas obras. Por completo. Cumpro as penitências dos meus pecados, mas não por ordem. Meu senhor nada ordena. Elas vêm como consequência e eu as aceito, porque por ele, com ele e nele eu sou todas as coisas.

E esse, como mais um de meus devaneios, trouxe-me uma conclusão. Não importa qual seja o ser que nós seres humanos temos como superior, no final das contas o tratamos sempre da mesma maneira: submissos.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Aaaah... faz-me rir burguesia elitista. Faz-me de rir de cólera!


Hoje, a beira da madrugada eu ouço de um burguês acusado e já preso outrora por fraude, durante pouco tempo é claro(sem maiores detalhes), que o ex-presidente Lula nada fez a não ser abrir as portas para uma corja de ladrões, e que por isso ele se via indignado com os rumos que o país estava levando, afinal estamos elegendo ladrões(sabe? essas pessoas que roubam por meio de ameaça, furto ou fraude). No mesmo momento quis interpelar essa indignação dele, apenas para que não ficasse sobrecarregada toda em cima de um réu, afinal uma corja de ladrões não se faz com uma única espécie. Mas, ao declarar que uma das épocas em que mais se teve roubo no nosso amado Brasil foi o período do regime militar, responsável pelo tão sonhado milagre econômico, claro, como as pessoas bem esclarecidas já sabem, às custas da fome e exploração de outras regiões que não eram e nunca serão o sul e sudeste do país, tive que escutar deste homem, com o peito cheio: eu tenho saudade da ditadura militar! E em resposta ao seu suspiro, ao meu lado, sentada com todos os seus penduricados, e com o semblante estático de plásticas, a esposa do dono do motel mais famoso da cidade suspirar em resposta, dizendo que foi a melhor época que o Brasil viveu.
A indignação me mordeu. Como que em uma casa onde só se toma Black Label, comia-se até alguns minutos atrás um risoto de frutos do mar a beira de uma piscina tratada semanalmente por piscineiro contratado, em um jardim cuidado com paisagismos e cheio de papagaios, araras, jabutis e outros animais silvestres domesticados com tanto carinho pelo proprietário, como em um lugar com pessoas tão bem instruídas pela educação particular, com seus filhos bem encaminhados, alguém pode ter uma ideia tão errada sobre a história do próprio país? Foi ai que percebi o tamanho da minha ingenuidade. Percebi que talvez a opinião fosse realmente uma questão de ponto de vista. E que poucos se davam ao trabalho de realmente conhecer as coisas antes de formular ideias sobre elas. Afinal, por que um carioca da gema, com seu sotaque tão bem pronunciado nos seus discursos eloquentes sobre política, cultura e – por que não? – religião, teria que conhecer a realidade do nordeste do Brasil, região tão sem importância, no período de 1964 à 1985? Por que ele ou qualquer outro morador das regiões privilegiadas deveriam procurar saber quem foram os heróis que resolveram a inflação e outros graves problemas econômicos brasileiros da época? É bem melhor suspirar de saudade dos militares que nunca enriqueceram às custas do Brasil e deram o seu sangue pelo país. Tudo isso muito bem escrito nas pesquisas dos historiadores, não é mesmo?!

[ SÓ QUE NÃO!]

Tentei erguer minha voz firme de adolescente que garimpa todos os dias as verdades sobre o mundo, mas, a experiência adquirida com os anos, essa experiência ignorante que lhe deu seus cabelos brancos aumentaram o volume da voz do meu amigo ostentando suas sábias opiniões como verdades absolutas. Outras vozes mais tímidas lhe deram razão. A esposa do senhor, com o cachorro maltês, cheirando a petshop, no colo também expressou sua nostalgia pelo regime militar, e a repugnância aos ladrões petistas espalhados por esse governo que já dura quase 12 anos. Eu já tinha feito essa reflexão diversas vezes. Muitos partidários petistas estão sendo julgados. Mas, também não nos devem uma resposta a casos mais antigos os tucanos e outros de partidos mais insignificantes. Digo insignificantes porque tenho descoberto que há dois partidos realmente “significantes” para os eleitores neste país, situação que deve agradar bastante meu amigo amante da farda, pois lembra 1964. Mas, pelo visto minha reflexão é inútil, pois ladrões mesmo são aqueles que vestem vermelho e tiram do imposto de renda desse pobre profissional liberal, que deve ganhar seus míseros 20 mil por mês, 20 reais para distribuir uma tal de bolsa família para quem ocupa, na hierarquia de classes, muitos degraus abaixo do dele.
Meu rosto corou de desespero. Eu precisava alerta-los que eles não sabiam do que falavam. Foi quando eu me dei conta que na verdade eles não queriam saber. Fiquei indignada, CLARO! Mas, lembrei que eu estava tentando uma discussão com um ex-preso e atual acusado por fraude, uma dona de motel e por aquela moça com o cachorro no colo.
Por um momento amei cada pessoa que passa perto de mim com o volume do carro no último escutando o funk mais ouvido da semana, o sertanejo mais cantado. Amei essas pessoas que assumem a própria ignorância mesmo que de forma inconsciente. Amei cada um que eu critiquei pelos seus gostos populares e vazios, porque eles fazem parte da massa e votam, mesmo que quase cegos, pela massa, por aquilo que forma isso que a gente chama de povo. E odiei com todas as minhas forças aquela burguesia que até que louvava os clássicos da MPB, Chico, Caetano, Milton, liam bons livros, assistiam globo, mas também a TV a cabo. Odiei com todas as forças cada um deles que diziam conhecer o que de melhor havia nesse país e nos outros, mas, nunca, e eu afirmo e comprovo se for preciso, nunca sentiram ou foram nem por um segundo verdadeiros brasileiros.



Agora, se me dão licença, está tarde. Depois de desabafar com o mundo virtual vou copiar a lista de compras que minha mãe me delegou. Estamos perto do dia 10, precisam ver como os mercados da periferia ficam abarrotados. E o que é melhor, abarrotados de BRASILEIROS!

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PS: Perdoem alguns erros e confusões textuais. A raiva e a indignação são péssimas revisoras gramaticais.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Minhas cantigas de roda hoje eu canto assim...



Se eu fosse um menino e soubesse sonhar
Eu sonhava contigo até acordar
Mas não sou menino e mal sei amar
Será que você ainda vai me gostar?








Se a escolha dessa rua fosse minha
Eu ficava por aqui a beira-mar
Mas o rumo do navio é oceano
E ao partir não se pode mais voltar.






pra onde eu fui?
  aqui a água também não é doce
  o sol também arde
  pra onde eu fui e não posso parar. 


terça-feira, 2 de outubro de 2012

LiBeRdAdE

Às vezes eu gosto de não terminar um cigarro. Só pela liberdade de não querer terminá-lo.
Paguei caro! Nesse mundo onde liberdade é regalia, mas é meu. E eu fumo até onde quiser.

[ E TENHO DITO ]

domingo, 30 de setembro de 2012

Ato Penitencial


Não sei brincar de ser adulta, sensata.
Não tenho escrúpulos. Bem pouca dignidade. Sou mesquinha, egoísta.
Faço papéis ridículos. Exijo o que não tenho direito e choro de covardia.
Dentre os canalhas, eu sou o pior.
Entrego minha alma e cobro o que devedor não pediu.
Recordo defeitos pra compensar meus erros.
Eu incomodo e atrapalho com consciência.
Acredito nos falsos elogios e construo falsas ideias de mim.
Até teve quem me amasse. Tem quem ame, mas, se soubessem o quanto custa... e eu não tenho o escrúpulo de alertar.
Sem querer, ou querendo, acredito nos que me defendem por pena, que é a única defesa que me cabe.

Sou vil! Como foi o Álvaro do Pessoa.
Só não estou cercada de príncipes porque não tenho a honra de admiti-los como tais.
Morrerei cercada de entes queridos que nunca permitirão à qualquer sábio dar razão a essa minha confissão.
Chorarão. Claro que sim. E eu, cada vez mais do fundo, vou gargalhar de tristeza por essa santa ingenuidade.
Deixem-me ir que nada de bom se vai.
Poupem-me dessa piedade ao menos no fim. Que a pena é quase tão vil quanto eu.
Não guardem nada. Dêem tudo aos pobres para eu ter a chance ter sido quase bom em algum momento.
E durmam tranquilos. Não me atreverei à assombrações. Minha inconveniência se vai com a morte. 
Vou buscar a redenção na possibilidade da inexistência.