segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O Falso Mendigo

Minha mãe, manda comprar um quilo e papel almaço na venda
Quero fazer uma poesia.
Diz a Amélia para preparar um refresco bem gelado
E me trazer devagarinho.
Não corram, não falem, fechem todas as portas a chave.

Quero fazer uma poesia.
Se me telefonarem, só estou pra Maria
Se for o ministro, só recebo amanhã
Se for um trote, me chama depressa
Tenho um tédio enorme da vida [...]

Minha mãe estou com vontade de chorar
Estou com taquicardia, me dá um remédio
Não, antes me deixa morrer, quero morrer, a vida
Já não me diz mais nada [...]

Não aguento mais ser censor.
Ah, pensa uma coisa, minha mãe, para distrair teu filho
Teu falso, miserável, teu sórdido filho
Que estala em força, sacrifício, violência, devotamento
Que podia britar pedra alegremente
Ser negociante cantando
Fazer advocacia com o sorriso exato
Se com isso não perdesse o que por fatalidade de amor
Sabe ser o melhor, o mais doce e o mais eterno da tua puríssima carícia.

Vinicius de Moraes

domingo, 6 de janeiro de 2013

Canção

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, apressa-te que amanha eu morro,
que amanha eu morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, apressa-te que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta em tua face
e em redor dos muros o vento inimigo.
Apressa-te, amor, apressa-te que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo...

Cecília Meireles

domingo, 30 de dezembro de 2012

Quem se atreve?

O amor é um grande atrevimento da nossa parte. Se despíssemos todos os pudores, jogássemos na cara das tradições nossa nudez social, sexual e profissional, se vomitássemos nossos mais ínfimos desejos no tapete persa de todo esse sistema, com certeza acabaríamos sendo redimidos, cedo ou tarde, por algumas de nossas virtudes.
Agora, quando nos atrevemos ao amor, estamos irrevogavelmente condenados. Não pela gravidade do crime, que realmente não é dos mais brandos, mas pela condição a que o amor nos submete: a liberdade. Por amor somos livres em nós, porque por amor, pra quem se ama, tudo é permitido e possível. A única hipótese que jamais poderá ser é não amar.
Não é romantismo. É puro atrevimento. De querer ser livre ao menos por dentro, porque a liberdade de fato não é um crime possível.  

domingo, 9 de dezembro de 2012

Com todo respeito

Hoje me atrevo a compor,
Me atrevo a escrever,
A errar a gramática,
A olhar para o mundo,
sentir harmonia em tudo,
Alegria, dor,
Ódio, amor,
Verdade, mentira,
Silêncio e poesia.
Me atrevo a entender
Que o mundo é tão grande
E por ele, eu andante,
Me atrevo a viver

Atrevido o meu verso
Convida a menina,
Convida a senhora,
O genro e a nora
Se atreve a chamar
O mendigo e o pedreiro,
O doutor, carpinteiro
Pra alegria cantar
Me atrevo a dizer
Que a tristeza foi embora
Agora é a hora da gente sorrir,
Da gente cantar,
Da gente dançar,
Da gente ser gente
E ser além de existir.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Concretizando Heráclito


Um homem jamais poderá banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois da segunda vez que tocar seu corpo na água o rio já não será mais o mesmo daquele que o banhou na primeira vez, nem o mesmo homem.

Quando meus olhos alcançaram as paisagens de beira de estrada e os meus pulmões se encheram desse ar remotamente familiar, eu tive a experiência concreta dessa filosofia. Só o meu rio que aparentemente era exatamente o mesmo, aparentemente intacto, como se estivesse me esperando todos esses anos para refletir a imagem de um espírito que eu ainda não havia visto. O “rio” me deu a certeza de que eu não era mais a mesma.



[   Eu até poderia esclarecer com mais detalhes esse momento da minha vida, mas, acho que tudo fica tão mais interessante quando é subjetivo. Foi mal ;)  ]

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Rebeldia

Vou vestir minha calça mais larga
Só pra sentir o toque leve da liberdade
Equilibrar-me no meio-fio
Como criança entediada em dia de domingo
Vou decorar toda a cidade com denúncias sobre a verdade.
Desisti dos versos medidos!
Farei poesia até para os menos entendidos.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Falando em nome de Deus ...


Ainda não sei se escrevo por amar demais ou se amo demais para poder escrever. Sei que é o amor responsável pelas linhas que crio, sejam elas histórias, sejam apenas devaneios, sejam verdade ou pura imaginação. É tudo culpa do amor. Aquele que eu escolhi como meu onipresente e onipotente senhor. Por ele eu me humilho, me subjugo, sacrifico, obedeço, enfrento. Por ele eu canto e silencio, choro, sorrio e clamo. 
Pode-se dizer que é uma relação de fé às vezes. Ele é um tanto quanto abstrato. No entanto, realiza milagres para se concretizar. 
Sou dele pela fé e pelas obras. Por completo. Cumpro as penitências dos meus pecados, mas não por ordem. Meu senhor nada ordena. Elas vêm como consequência e eu as aceito, porque por ele, com ele e nele eu sou todas as coisas.

E esse, como mais um de meus devaneios, trouxe-me uma conclusão. Não importa qual seja o ser que nós seres humanos temos como superior, no final das contas o tratamos sempre da mesma maneira: submissos.