segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Sobre o que é tolo

Gosto de escrever pelo prazer sutil de deslizar a caneta. Raspar o lápis no papel fazendo barulho de coisa séria. Um prazer tão próprio que às vezes tenho a gana de escrever de olhos fechados. Então tudo é bagunça por dentro e por fora.
E quando não se tem, nem se sabe o que escrever, mas brota esse desejo de brincar de escritor ... ah! É mais angustiante que noite de domingo depois da missa.
É uma vontade que deveria ter resolução própria, como a falta de ar, que se o ar falta, o corpo dana a respirar com mais força sem que se possa controlar.
O desejo de roçar a caneta no papel não se satisfaz se o fizermos sem direção. O atrito deve desenhar palavras e as palavras devem desenhar algo com a ousadia de ser dentro e fora do papel.
Vontade ingrata, que por mais satisfeita hora ou outra volta, como fome e sede que nem a morte alivia. Os crentes dos espíritos alimentam e embebedam seus mortos conforme a vossa vontade.
No pé do meu túmulo deixem sempre um papel e uma caneta. É o suficiente.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

sem assunto

De tantos assuntos importante para serem abordados: políticas esperando críticas, notícias sedentas por títulos sensacionalistas, movimentos clamando uma propaganda para não parecerem tão inúteis. Enfim, um mundo a ser abordado. E mais uma vez eu me entrego à maior futilidade da literatura: o amor. Que alimente a alma, como alegam os românticos, e que a alma seja mais importante que o corpo. Que seja o mais velo e puro sentimento, capaz de construir e demolis histórias. Que seja a melhor invenção da vida, mas, falar de amor: não existe nada mais vão. Ainda sim, até os iletrados se atrevem a falar sobre ele, à bolar teorias. E eu, se tenho um tempo sobrando, logo me entrego. Na verdade, se o tempo não sobra, também.
Já parei de fumar, diminui a quantidade de café, mas não sei parar de falar de amor. Mesmo sem ter o que dizer, como é o caso nesse momento, preciso mencioná-lo uma vez por dia, por hora, se necessário, em voz alta, ouvir de mim mesma a minha submissão ao vício.
"Mas, e os amores como vão?" Pera aí! Estamos falando de amor. Vivê-lo é outro texto!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Poema

Oh! aquele menininho que dizia
"Fessora, eu posso ir lá fora?"
Mas apenas ficava um momento
Bebendo o vento azul...
Agora não preciso pedir licença a ninguém.
Mesmo porque não existe paisagem lá fora:
Somente cimento.
O vento não mais fareja a face como um cão amigo...
Mas o azul irreversível persiste em meus olhos.

( Mario Quintana )

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O Falso Mendigo

Minha mãe, manda comprar um quilo e papel almaço na venda
Quero fazer uma poesia.
Diz a Amélia para preparar um refresco bem gelado
E me trazer devagarinho.
Não corram, não falem, fechem todas as portas a chave.

Quero fazer uma poesia.
Se me telefonarem, só estou pra Maria
Se for o ministro, só recebo amanhã
Se for um trote, me chama depressa
Tenho um tédio enorme da vida [...]

Minha mãe estou com vontade de chorar
Estou com taquicardia, me dá um remédio
Não, antes me deixa morrer, quero morrer, a vida
Já não me diz mais nada [...]

Não aguento mais ser censor.
Ah, pensa uma coisa, minha mãe, para distrair teu filho
Teu falso, miserável, teu sórdido filho
Que estala em força, sacrifício, violência, devotamento
Que podia britar pedra alegremente
Ser negociante cantando
Fazer advocacia com o sorriso exato
Se com isso não perdesse o que por fatalidade de amor
Sabe ser o melhor, o mais doce e o mais eterno da tua puríssima carícia.

Vinicius de Moraes

domingo, 6 de janeiro de 2013

Canção

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, apressa-te que amanha eu morro,
que amanha eu morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, apressa-te que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta em tua face
e em redor dos muros o vento inimigo.
Apressa-te, amor, apressa-te que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo...

Cecília Meireles

domingo, 30 de dezembro de 2012

Quem se atreve?

O amor é um grande atrevimento da nossa parte. Se despíssemos todos os pudores, jogássemos na cara das tradições nossa nudez social, sexual e profissional, se vomitássemos nossos mais ínfimos desejos no tapete persa de todo esse sistema, com certeza acabaríamos sendo redimidos, cedo ou tarde, por algumas de nossas virtudes.
Agora, quando nos atrevemos ao amor, estamos irrevogavelmente condenados. Não pela gravidade do crime, que realmente não é dos mais brandos, mas pela condição a que o amor nos submete: a liberdade. Por amor somos livres em nós, porque por amor, pra quem se ama, tudo é permitido e possível. A única hipótese que jamais poderá ser é não amar.
Não é romantismo. É puro atrevimento. De querer ser livre ao menos por dentro, porque a liberdade de fato não é um crime possível.  

domingo, 9 de dezembro de 2012

Com todo respeito

Hoje me atrevo a compor,
Me atrevo a escrever,
A errar a gramática,
A olhar para o mundo,
sentir harmonia em tudo,
Alegria, dor,
Ódio, amor,
Verdade, mentira,
Silêncio e poesia.
Me atrevo a entender
Que o mundo é tão grande
E por ele, eu andante,
Me atrevo a viver

Atrevido o meu verso
Convida a menina,
Convida a senhora,
O genro e a nora
Se atreve a chamar
O mendigo e o pedreiro,
O doutor, carpinteiro
Pra alegria cantar
Me atrevo a dizer
Que a tristeza foi embora
Agora é a hora da gente sorrir,
Da gente cantar,
Da gente dançar,
Da gente ser gente
E ser além de existir.