sábado, 22 de setembro de 2012

Das ilusões

Toda ilusão minha tem suas raízes em uma realidade saborosa, intensa, que quando se esvanece me obriga, por sobrevivência, a me iludir da sua existência.

domingo, 19 de agosto de 2012

Se de repente for verdade...

" As vezes me pego sonhando acordada com coisas que poderiam existir. A sala iluminada com um abajur de leitura, eu embalando um livro no colo. Distraio-me dele com a sua imagem a minha frente lendo, fumando ou só pensando. De repente me separo do livro, porque percebo como você é linda e como preciso de você o mais perto possível. Nesse instante inusitado, na sala mal iluminada, em uma noite no meio da semana, eu posso te beijar e dizer que te amo! "

( D. A )

terça-feira, 3 de julho de 2012

Na espera

Ela tinha as pontas dos dedos negras. E eu com minha muita ingênua idade ficava me perguntando que tipo de coisas enegreciam os dedos de uma mulher jovem. Quis perguntar, mas nunca tive essa pureza da curiosidade sem malícia. Eu certamente a ofenderia com meu tom indiscreto.Imaginei-me criança, questionando minha mãe:- Por que aquela moça tem os dedos pretos?Dona Carmem certamente me apertaria forte o braço e sinalizaria um repreensivo silêncio. A dúvida me atormentaria durante toda a espera pelo ônibus, e eu nunca saberei o que me irritava mais a alma infantil, se não saber o porque uma moça bonita tinha as pontas dos dedos negras, ou aquela espera interminável na rodoviária. Mas não há remédio. A única resposta que eu teria de Dona Carmem é que "na vida há coisas que não podem ser questionadas". Mais tarde conclui que a solução para elas é o apertão no braço e o silêncio.- Plataforma quatro, passageiros com destino a: Birigui, Penápolis e Rio Preto. Favor comparecer ao embarque.Se dona Carmem não estava mais lá para me calar a indiscrição então por que me calei?Apanhei minha bagagem desapontada. A moça acendia seu cigarro com ar de importância. Minha mãe com certeza arriscaria um comentário repreensivo sobre esse hábito, mas eu me moldei mais em silêncio. Desejei que ela compartilhasse da minha viagem, mas ao sinal da saída do ônibus ela em se moveu. Parecia que morava ali. Do meu assento eu a observava, pela janela larga. Era bonita. Eu teria inveja se toda a minha atenção não estivesse na questão: por que dedos negros?Ela apagou o cigarro com um elegante desprezo. Enquanto o carro dava suas primeiras sacudidas, sem perder nenhum detalhe, meus olhos deram-me uma dica ao mistério. De dentro da bolsa saiu pelas suas mãos singulares um bloco grosso e uma caneta tinteiro. Sim, dessas que já não se usa mais. Como um ritual, destampou a caneta, limpou com as pontas dos dedos os excessos de tinta, folheou o bloco como se fosse a primeira vez, e no que deveria ser uma página em branco se pôs a escrever no momento em que eu já estava distante demais para ver com os olhos. "Deve ser escritora, dessas que não se acostumam com tecnologias".Senti-me feliz e aliviada naquele momento. Lembrei mais uma vez de dona Carmem e da primeira vez que manifestei um desejo sobre o futuro: "quero ser escritora mãe!". Não respondeu com uma só palavra, mas no seu olhar eu senti o aperto o braço: Silêncio!No final das contas fiz magistério e hoje sou esposa. Graças a Deus! Não suportaria ter as pontas dos dedos negras.

terça-feira, 15 de maio de 2012

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Quase um mar

                                                                               
Esses olhos quase verdes
Afogam-me como se fossem todo o mar,
Porque mentem os que pensam em um mar azul,
Ele é da cor dos olhos de quem se ama
Uma breve ideia do eterno
O desejo, as vezes contido, de se entregar
À essa eternidade concreta
Entre a Europa e a América.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Cativa inveja

Na vizinhança há uma roseira que cresce como se não houvesse amanhã. E suas rosas brotam com a segurança de terem sido feitas só para isso. E por essa razão são belas. Ruborizadamente belas.
A inveja? É que a roseira cresce em um quintal que não é o meu. Eu não posso cuida-la. Mas, um dia tomei coragem e invadi aquela propriedade alheia. Não roubei um botão sequer. O que para mim foi o milagre de não cair em tentação. Minha inveja invadiu aquele quintal e cuidou da roseira que eu não podia chamar de minha.